O Brasil está entre os primeiros países a adotar a nova Norma de Agricultura Regenerativa da Rainforest Alliance em sua produção de café. A nova certificação avança nosso trabalho em três áreas de impacto: saúde e fertilidade do solo, biodiversidade e resiliência climática.
A nossa Norma de Agricultura Regenerativa poderá ser adotada de forma autônoma ou complementar à Norma de Agricultura Sustentável. Seja qual for a escolha do produtor, ambas requerem a manutenção da cobertura arbórea natural das fazendas, fornecendo um habitat para a vida silvestre e insetos, protegendo contra o vento e a erosão, e aumentando a resiliência climática.
Cafeicultura resistente ao clima e a pragas
A Fazenda Onça, em Guaranésia (MG), é uma das fazendas certificadas com a nova norma. Propriedade da família do produtor Mário Garcia desde 1880, o local é um exemplo de onde a tecnologia é usada em benefício da natureza e de uma produção sustentável e regenerativa.

“A Fazenda Onça já promove boas práticas agrícolas há muito tempo. Basta ver que a gente tem uma área de trinta e cinco por cento de reserva de mata”, destaca Mário.
Ao acompanhar Mário pela Fazenda Onça, o produtor vai explicando as diferentes práticas regenerativas que fazem parte da norma de agricultura regenerativa e que ele vem aplicando em sua fazenda, como o uso de compostos orgânicos, por exemplo.
“A gente abre a linha de café com equipamento, coloca quatro ou cinco litros por metro desse composto orgânico dentro e bate. Ele é misturado com a terra e, depois, a gente vem plantando as mudas de café nessa terra já mais bem preparada, mais bem condicionada para receber as mudas”.
A Fazenda Onça tem 808 hectares, dos quais 202 hectares são dedicados ao cultivo de café. Nesta área, uma prática fundamental da agricultura regenerativa, e também parte da nossa norma, o uso de plantas de cobertura, vem ajudando a mitigar os efeitos das mudanças climáticas.
“Estamos vendo verões quentes e, às vezes, invernos quentes. Então, quando a gente trabalha com essa boa prática regenerativa de braquiária ou de mix (de sementes), você consegue permeabilizar e jogar água para dentro do solo”, explica Mário.

Plantar respeitando e regenerando a natureza também impõe seus desafios, como o de manejar pragas durante a época de colheita, na qual não se pode aplicar defensivos que possam contaminar os grãos do café.
Nesse caso, a tecnologia também entra para ajudar. Mário trabalha com o Manejo Integrado de Pragas (MIP), que faz parte dos requisitos da nossa Norma de Agricultura Regenerativa, dando preferência a tratamentos biológicos.
Na época da colheita, quando o bicho mineiro (praga típica do café) ataca, mas não se pode aplicar defensivos sobre as plantas, o produtor recorre à aplicação de crisopídeos com o uso de drone.
Os crisopídeos atuam identificando e consumindo lagartas, ovos e até mesmo pupas do bicho mineiro do café. Mário conta que a aplicação de qualquer insumo, mesmo os aceitos pela certificação, implicaria em um período de espera para a colheita do café.
“O crisopídeo é um biológico que você pode soltar hoje e colher o café”, explica Mário. “Esse tratamento com crisopídeo é feito com drone. Ele solta uma quantidade de ovos por hectare. Você faz o plano de voo, ele (o drone) solta isso (os ovos de crisopídeo) em uma altura correta onde pode se dispersar. E esses ovos estão eclodindo em um a dois dias. A partir do momento que eclode, ele vai atrás de alimento. Então, ele procura a larva do bicho mineiro e come.”
Para os produtores que estão avaliando a possibilidade de aderir à nova certificação, Mário oferece traz uma perspectiva positiva. “Eu recomendo entrar (no) regenerativo. (…) Eu, pelo menos, gosto de trabalhar com essa parte de biodiversidade, com essa parte de conservação. Tudo isso dá uma satisfação pessoal para mim, e eu acho que também vai dar uma satisfação econômica.”
Do campo ao consumidor
No norte do estado de São Paulo, em Tapiratiba, encontramos outra fazenda que recebeu nossa Certificação de Agricultura Regenerativa. A Fazenda Pratinha, com 56 hectares, é propriedade de Gersoní Munhoz desde 2017.
Com as mudanças climáticas, e as chuvas ficando mais escassas na região, Gersoní decidiu também implementar aos poucos um sistema de irrigação em sua fazenda. Mas, além da irrigação convencional, ela vem adotando a fertirrigação, sistema que adiciona nutrientes à água fornecida às plantas, além de ser parte de nossa nova norma.

“Você já tem uma precisão maior, porque na água você consegue fazer uma dosagem melhor e ele (o produto) vai direto para o pé. Então, você vai gotejar ali certinho no pé de café. Você não está espalhando o produto como você espalharia se ele fosse em pó, por exemplo”, compara.
Gersoní implementa ainda outras práticas fundamentais na agricultura regenerativa, como o uso de plantas de cobertura e a compostagem. Ela conta que, quando decidiu aderir à Certificação de Agricultura Regenerativa da Rainforest Alliance, entendeu que essas práticas teriam que ser sistematizadas.
Sabendo que seu produto tem uma longa jornada até chegar ao consumidor, Gersoní olha além de suas plantações e gosta de pensar no quão longe seu trabalho pode chegar.
“Pode ser o cara que está esperando um avião para viajar, pode ser um cara na estação de trem, pode ser uma pessoa simplesmente sentada na varanda da casa dela vendo o sol nascer e tomando um café antes de ir trabalhar. E aí você começa a pensar como que você está tocando a vida dessas pessoas de alguma forma, com o seu trabalho”.

Olhando de forma mais holística para o mercado de café e suas perspectivas para produtos com a Certificação de Agricultura Regenerativa, João Paulo Custódio de Brito supervisor de Sustentabilidade na Exportadora Guaxupé, também vê no consumidor a força motora para a expansão das vendas de produtos sustentáveis e regenerativos.
A Exportadora Guaxupé é a empresa que administra o grupo de fazendas das quais a Onça e a Pratinha fazem parte, além de outras 21 que também estão entre as primeiras a serem certificadas pela Norma de Agricultura Regenerativa no Brasil.
“Cada vez mais, o consumidor quer entender a forma que o produto que ele está consumindo foi produzida. Então, cada vez mais, cafés que são produzidos com responsabilidade social, ambiental, econômica, com boas práticas agrícolas, com implementações de ações voltadas para a agricultura regenerativa, eles são valorizados no mercado. Esse mercado, ele só tem a crescer, ele não volta mais, ele só cresce”, aponta João.




